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terça-feira, 1 de julho de 2014

BALZAC - UM JOVEM PROVINCIANO EM PARIS




BALZAC - UM JOVEM PROVINCIANO EM PARIS 
                  " Em 1814, o senhor Bernard-François de Balzac foi nomeado, como já dissemos, diretor do serviço de víveres, o que determinou a mudança de toda a família para a capital. Ali, em duas escolas modestas, Honoré concluiu o curso interrompido, sempre medíocre, sempre sem nenhum brilho.  
                    Ao julgar das pessoas com que convive, não se operou ainda nele nenhuma modificação radical. É uma criança. Mas no íntimo de seu ser, talvez sem que ele mesmo o compreenda, está-se operando uma revolução. Paris, está espantosa aglomeração de casas, homens, recordações e inteligências, apodera-se dele, penetrando-lhe na alma com o encanto sutil de sua atmosfera, satura-lhe o espírito com o fecundo veneno que se destila nas aulas da Sorbone, nos cursos do Museu de História Natural, nas lojas dos alfarrabistas, nas palestras do Bairro Latino, Balzac revisa as bibliotecas, corre as ruas à procura dos rastos dos grandes homens que por ali transitaram, delicia-se em acompanhar de longe um desconhecido, em deitar um olhar pelas janelas abertas, em ler o enigma de algumas das mil fisionomias que ocorrem num minuto nos bulevares, em apanhar por um instante algum dos mil destinos que diariamente cruzam o seu, em devorar livros e jornais, em escutar boquiaberto pessoas que ainda viram os grandes homens do século precedente, como essa velha senhorita R..., amiga da mãe que conhecera Beaumarchais de perto e dele recorda tantos fatos admiráveis. 
                  Poder-se-iam passar dez anos, uma vida inteira nessa divertida existência de badaud. Mas cada um tem de se arrumar na vida. Por felicidade de Honoré, amigos não faltam a seu pai. Entre esses, dois tabeliães se oferecem para facilitar a estréia do rapaz dando-lhe um lugar em seu cartório, o que significa o acessoa uma profissão honesta e lucrativa. Os pais resolvem, pois, que seu filho será notário. Dezoito meses no cartório do senhor Merville, outros tantos no do senhor Passes são o bastante para um moço criar afeição ao ofício - ou se enjoar dele para o resto da vida. Foi este o caso de Balzac. Sua atuação nos dois escritórios amigos fortaleceu na família a convicção de que ele era um incapaz; ele mesmo, porém, ficou convencido definitivamente de que seu lugar era a literatura. 
                  Nada se perde na vida de um gênio. Sem os anos cinzentos do colégio, não haveria Luiz Lambert.  Sem os sofrimentos, mais tarde, de um amor infeliz, não haveria A Duquesa de Langeais.  Sem os três anos passados nos cartórios, não haveria Uma estréia na Vida, César Birotteau, O Contrato de Casamento. 
                   Balzac aproveitou bem esses três anos, embora não no sentido em que seus pais o esperavam. Nos códigos, registros e cadastros identificou partes complicadíssimas e essenciais do mecanismo da vida moderna, cada vez mais amarrada por fórmulas, formalidades e regulamentos. Penetrou no labirinto do processo, conheceu as manhas dos advogados e a obstinação das partes à procura de escapatórias, de recursos lícitos e ilícitos. Viu, principalmente, o que havia atrás de tudo aquilo: o dinheiro, a mola de tantas ações humanas, em que pouco se falava nos salões e que nunca aparecia nos romances do tempo. 
                   Lembremos que hoje em dia, o romance não constitui para nós apenas uma diversão. É um importante instrumento de conhecimento indireto, abre-nos ambientes e perspectivas que nunca teríamos oportunidade de conhecer, fornece uma visão prática e real do mundo. Sentados numa poltrona podemos adquirir sem risco e sem cansaço, e até com divertimento, a experiência humana dos observadores, mais clarividentes, entrar em contato com os indivíduos, as classes e os povos. Este notável engrandecimento do campo visual do nosso espírito, devemo-lo principalmente a Balzac, que foi um dos primeiros a franquear ao público o grande laboratório experimental do romance moderno. 
                   Por sua parte, ele ainda não tinha este recurso. A sua experiência foi toda direta, pessoal, Como veremos no decorrer de sua vida, teve de "viver" a sociedade moderna antes de revivê-la, em toda a sua complexidade, no papel." P.R. 

                    

segunda-feira, 30 de junho de 2014

BALZAC NO COLÉGIO

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BALZAC NO COLÉGIO 
                     "A respeito dos primeiros anos de Honoré não se registram senão amáveis ninharias.  Pouco ou nada sabemos no tocante ao externato de Tours, onde começou os estudos e que cedo abandonou para entrar, em 22 de julho de 1807, no então famoso colégio religioso Vendôme, regido pelos oratorianos. Como ainda hoje a maior parte das crianças francesas, Balzac ia estudar como interno. (note-se que isto foi escrito por Paulo Rónai por volta de 1950).  O colégio era uma grande oficina, onde não havia férias; o aluno entrava analfabeto e só saia ao cabo de oito, nove ou dez anos, com a sua dose de cultura geral adaptada às necessidades da época, muitas humanidades e poucas ciências. 
                    Segundo uma curiosa reminiscência do diretor do estabelecimento, durante os dois primeiros anos de estudos nada se podia tirar do pequeno Balzac. Nas aulas não dava outro sinal de vida a não ser uma repugnância visceral a toda espécie de trabalho obrigatório.  Não tomava conhecimento das explicações, não decorava as lições, não fazia as composições. Para casos como este o colégio tinha um remédio: a palmatória - mas as mãos de Honoré estavam quase sempre cheias de frieiras e os mestres tiveram de recorrer à panaceia número 2, o cárcere, de que o menino por pouco não se tornou pensionista, chegando a passar lá uma semana inteira sem interrupções. Data também desse período sua primeira invenção, cuja lembrança há de perpetuar-se no colégio : uma pena de três bicos, particularmente apropriada a executar em curto tempo os castigos que lhe impunham. 
Graças à condescendência de um censor, o insubmisso, que  em classe conservava seu ar ausente e taciturno, conseguiu levar consigo para a prisão livros da biblioteca escolar. à medida que os lia, sentia desabrochar a inteligência, mas através de um caos, à custa de esforços dolorosos. Já não se contentava de ler; pôs-se a escrever, imitando condiscípulos das turmas superiores e obtendo em breve o apelido, meio irônico, meio admirativo, de poeta.  Dos versos que então compôs, um único sobreviveu, tão ruim que não deixa dúvida acerca da qualidade dos outros. Um Tratado da Vontade, com que se ocupava durante as aulas, lhe foi confiscado por um dos professores, que não lho devolveu mais. 
                 Por volta da Páscoa de 1813, o diretor mando vir com urgência a senhora Balzac. Em lugar do menino gordo, corado e forte que confiara ao colégio, ela encontrou um adolescente pálido, doentio, com ar de sonâmbulo, atingido por uma espécie de coma; uma indigestão cerebral, devia à leitura excessiva e desordenada. 
                 Honoré teve de ser retirado sem demora do estabelecimento. Alguns meses ao ar livre e saudável da Touraine restauram-lhe as forças, e ei-lo com uma porção de conhecimentos confusos e as saudades do seu Tratado, cuja perda nunca cessaria de deplorar. 
                 Não se deve formar suposições exageradas quanto ao valor deste trabalho precoce. Quinze anos ainda decorriam antes que Balzac escrevesse a primeira página que prestasse. Mas o título é significativo, pois indica no menino uma consciência surpreendente do que seria a sua maior força na vida. Com uma vontade de ferro realizaria de fato um milagre sem analogias na história das literaturas; de autor péssimo, abaixo do medíocre, que seria até quase aos trinta anos, de repente se tornaria um escritor grandioso, criador do gênero mais importante da literatura moderna, o romance de costumes. 
                 Essa primeira fase de Balzac, em que o processo de transformação se operou tão penosamente em seu espírito, deixou vestígios duradouros, pois está descrita em Louiz Lambert, uma de suas obras-primas e talvez o seu livro mais autobiográfico, em que o escritor se desdobra em duas personagens: o próprio Luiz Lambert, esse gênio infeliz, e o amigo que lhe conta a história. 
                  Já no momento de sua saída forçada do colégio, aparece Balzac com a crença inabalável em seu gênio, crença que nunca mais perderá e que, no entanto, pelo menos a essa altura, não tinha nenhum argumento, nenhuma prova em seu apoio. Como a concebeu? Como conseguiu mantê-la ante a indiferença e a troça dos colegas, da família?  É uma pergunta a que nenhum de seus biógrafos sabe responder." P. R. 


BALZAC - A IRMÃ PREFERIDA


BALZAC - A IRMÃ PREFERIDA 
                    "Dos três irmãos de Balzac, sua irmã Laurence, casada jovem e morta pouco depois de casada, e seu irmão Henry, que a sede de aventura levou cedo às colônias, não lhe inspirava atenção particular. Todo o seu carinho concentrava-se em Laure, a mais moça das irmãs, que lhe retribuiu condignamente. Sempre foi amiga fiel e prestativa do irmão, em cujo talento teve confiança desde muito cedo e ao qual até ajudou, com a sua colaboração nas primeiras tentativas literárias. O casamento de Laure não modificou as relações cordiais dos irmãos, graças à simpatia que seu marido, o engenheiro Surville, soube inspirar a Balzac, que mais de uma vezo consultou a respeito de seus miríficos planos de negócios. Com raras exceções, que Balzac aliás atribuía às intrigas da mãe, o afeto dos irmãos permaneceu firme. No entanto, num momento de ânimo escreveria à noiva, comparando a situação desta à sua própria: "Por mim, eu não tenho ninguém, e o coração de minha irmã é bem pouca coisa, pois ´martelado por minha mãe, que passou a vida a nos opor um ao outro. Não é que minha imã, aos quarenta anos, se lembrou de escrever e de crer que tem talento! Pois minha mãe lhe diz que tenho ciume dela!" Arrefecimento mais longo parece ter sido aquele que sobreveio a Balzac nos seus últimos anos de vida, que ele passou em grande parte na Rússia, junto à condessa Hanska, sob cuja influência se afastou sentimentalmente da família. Laure perdoou esta falta ao irmão, mas não à futura cunhada, a quem, entre amigos, acusava de ter contribuído para a morte de Balzac com a desilusão que lhe causara. Esse ressentimento é confirmado pela bela biografia de Balzac, publicada poucos anos depois da morte deste por Laure Surville, na qual não se lê a menor alusão à condessa Hanska, heroína do grande romance de amor de Honoré durante dezesseis anos e sua mulher nos últimos meses de vida do escritor.  
                 Aos vinte anos de idade, porém, quando Balzac  ainda não tinha um sentimento trágico da vida, o agitar-se dessas curiosas figuras à volta dele inspirou-lhe apenas um interesse terno e divertido.  Como o revelam as cartas que por essa época escreveu a Laure, o espetáculo da família, a presença de conflitos miúdos e interessantes naquele círculo tão estreito, a originalidade do caráter do pai, da mãe e da avó inspirava-lhe desde cedo o desejo de por aquilo no romance. Esse desejo nunca foi realizado por causa de instintivos escrúpulos de delicadeza; mas deu o primeiro impulso ao talento do romancista e ofereceu-lhe inesgotável mina de observação. Foi nesse ambiente reduzido, em que cada um espreitava as palavras e os menores gestos dos outros, que ele criou o hábito de observar cenas na aparência insignificantes, de buscar, disfarçados em conversações anódinas, germes de conflitos e choques de sentimentos e paixões." P.R. 

BALZAC - MÃE E FILHO

Escultura de Balzac 
BALZAC - MÃE E FILHO 
                  "Este sábio, de fato, cometera um erro de consequências graves. Casara-se com uma moça que tinha 32 anos menos do que ele, Laure Sallambier, filha de um diretor dos hospitais de Paris.  Esta diferença enorme de idade explica, em parte, a falta de uma verdadeira atmosfera de felicidade dentro da casa paterna, falta com que Balzac ia sofrer tanto. Ambiciosa, nervosa, insatisfeita ao lado de um marido que, do alto de sua serenidade olímpica, pouco se importava com seus rompantes, ela, sem querer, fazia gemer os filhos sob o peso de seu temperamento áspero. A senhora Balzac era uma dessas mães que, embora possuindo no mais alto grau o sentimento de família, são incapazes de expressar ternura. Sempre sujeita a apreensões reais, e imaginárias e a repentinas mudanças de humor, receava para os filhos consequências nefastas da indulgência paterna, e procurava corrigi-la como a natureza "que rodeia as rosas de espinhos e os prazeres de desgostos". Atendia com feroz energia aos interesses materiais dos seus e atribulava-lhes o espírito com a maior boa vontade do mundo. A glória de seu filho Honoré em nada lhe modificou as disposições. Consagrou-lhe a própria existência, mas estragou a dele com incessantes implicâncias. Havia entre os dois um conflito permanente, agravado pelo fato de haver o filho, pelas dívidas que contraíra logo no começo de sua carreira e de que nunca se conseguiu livrar, reduzindo a mãe e toda a família a um verdadeiro estado de pobreza. Aliás Balzac, a despeito dos lucros imensos que lhe traziam seus livros, não conseguiu desvencilhar-se das obrigações pecuniárias para com a própria mãe, que ficou sua credora. Como tantas vezes acontece, esta, por seu lado, não levava a sério o filho famoso. Balzac, já com cinquenta anos e um renome universal, queixava-se de que a mãe o admoestava como a uma criança. Vez por outra, o conflito entre essas duas criaturas, que, no fundo, se queriam muito, atingia uma intensidade trágica, como o revelam certos trechos da correspondência de Balzac com a condessa Hanska, sua futura mulher. "Ela é a um tempo um monstro e uma monstruosidade! Neste momento, etá matando minha irmã, depois de ter matado a minha pobre Laurence e minha avó" - exclama o escritor numa página de terrível amargura, em que afirma não ter rompido definitivamente com a mãe unicamente porque lhe deve dinheiro; e acrescenta: "Acreditávamos que estivesse louca, e fomos consultar o médico, que é seu amigo desde há trinta e três anos. Ele nos respondeu: "Infelizmente ela não é louca; é má!... Ela não nos perdoa os seus defeitos". 
                   Se houvesse lido essas frases terríveis, a mãe teria sem dúvida acusado o filho de ingratidão, e não sem motivo. Quem procura colocar-se na situação da senhora Balzac há de reconhecer que ela pagou bastante caro a glória de ter dado à luz o maior romancista da França. Como podia conformar-se com a conduta daquele filho turbulento e incompreensível, criança eterna que não criava juízo, ganhava fortunas e não pagava as dívidas mais prementes, vivia no luxo sem ter um tostão, matava-se com o trabalho e café, empreendia as especulações mais loucas, mudava-se constantemente, abandonava em os trabalhos mais urgentes e corria atrás da aventura na Suíça, na Itália, na Rússia, deixando passar meses sem escrever à mãe? Não, os instintos conservadores da senhora Balzac, encarnação do espírito de família, não podiam decididamente aquiescer à "maluquice" de Honoré. Por outro lado, o instinto materno nunca lhe permitiu abandoná-lo, agisse ele como quisesse, e ficou ao lado dele até o fim, assistindo-o fielmente em sua agonia, pois o destino a fez sobreviver ao filho. 
                Balzac não desconhecia, aliás, a dedicação da mãe, e disto deu inúmeros testemunhos em suas cartas a ela, cheias de sinceros protestos de amor filial. Agradecia-lhe mais de uma vez os seus incessantes cuidados e afirmava que o fim principal de seus trabalhos era assegurar-lhe uma velhice tranquila e feliz. Apenas este sentimento não suportava a proximidade; bastava que os dois morassem sob o mesmo teto para recomeçar a briga. 
                Na media em que é possível determinar a transmissão das qualidades dos pais aos filhos, pode-se dizer que Balzac herdou da mãe a imaginação quase doentia, o temperamento impressionável, sujeito a crises de abatimento e a acessos de otimismo. Também foi ela que lhe transmitiu seu pendor para o misticismo, ao qual provavelmente a levaria a procura de um refúgio em meio às atribulações de uma existência falhada, e foi entre os livros dela que Honoré encontrou pela primeira vez as obras de Swedenborg, que o deviam impressionar tão fortemente. 
                Havia também, na casa do senhor Bernard-François, a sogra, mãe de Laure Sallambier. Aliada natural da filha, tentava cansar a paciente resignação do genro, cujas reações, no entanto, se limitavam a uma ou outra observação maliciosa, cochichada ao ouvido dos filhos. "Vossa avó - dizia-lhe num piscar de olhos - é uma comediante hábil que conhece o valor de um passo, de um olhar, da maneira de cair numa poltrona." Mas pelo menos ela não partilhava a severidade da filha contra os netinhos, a quem teria viciado com suas carícias se não fora a constante vigilância materna." P.R.

BALZAC E A HERANÇA PATERNA

BALZAC E A HERANÇA PATERNA 
                   Balzac nasceu no dia 16 de maio de 1799, dia de São Honorato, cujo nome lhe foi dado em Tours, capital de Touraine, "o jardim da França", uma das regiões mais belas da Europa. Críticos literários tiram às vezes desta circunstância conclusões apressadas procurando explicar, pelo lugar de seu nascimento, características artísticas da fisionomia do escritor. Pátria de Rebelais, o criador de Gargântua, a Touraine distingue-se - na própria definição de Balzac - por um espírito "conservador, manhoso, trocista e epigramático... e, ao mesmo tempo, ardente, artístico, poético e voluptuoso". Mas o fato é que foi por mero acaso que Honoré veio a nascer em Tours, para onde seu pai, Bernard-François, languedociano de origem, fora transferido pouco antes de ele nascer, conduzindo consigo a esposa, a parisiense Laure Sallambier, com quem se tinha casado em 1797; e, como mais adiante revemos, o filho passaria em Tours apenas os anos da infância.
                   Ao examinar os papeis administrativos relativos ao nascimento de Honoré,  pesquisadores impertinentes depararam com a falta, entre os nomes "Honoré" e "Balzac", da partícula nobiliária "de", que o escritor sempre ostentava com vanglória tanto maior quanto menos direito lhe cabia de usá-la. Por outro lado, da certidão de idade do pai se vê que este é filho de um modesto lavrador do sul da França, cujo nome se grafava Balssa e não Balzac. 
                  O nome de Balzac, além de mais aristocrático, tinha também um sabor literário, pois fora ilustrado, desde o século XVII, por Jean-Louis Guez de Balzac, um dos primeiros membros da Academia Francesa, apelidado por seus contemporâneos de "o Grande Epistológrafo". 
                   Estas pequenas mistificações devem por-nos de sobreaviso quanto às brilhantes funções que o romancista, mais tarde, atribuiria ao seu progenitor. Parece estabelecido hoje que o senhor Bernard-François Balzac não exerceu o cargo de "secretário do Grande Conselho sob Luiz XV, nem o de  "advogado do Conselho sob Luiz XVI", mas apenas e o de secretário particular de um banqueiro durante o Antigo Regime, e o de funcionário do serviço de vitrines durante a Revolução. Depois de sua permanência de quase vinte anos em Tours, chegou a ser adido do maire e um dos administradores do hospital local; enfim, nomeado funcionário da direção do mesmo serviço de víveres em Paris, em que foi aposentado. 
                  Nem por isso o pai de Balzac deixa de ser uma personagem curiosa. Tipo do esquisitão, professava princípios à la Rousseau, e tinha um número regular de manias, todas reduzíveis a uma só, a principal entre todas: a da longevidade. Queria prolongar a vida humana em geral e a sua em particular por todos os meios, e para isto preconizava a volta à natureza, o exercício físico, a abstinência alimentar e genésica; estudava com entusiasmo os costumes dos chineses, povo tido como de vida mais longa que os outros; fazia a propaganda mais fervorosa de certa tontina Lafargue, chamada a preservar a velhice dele e de seus concidadãos das preocupações materiais. Com ares de reformador, espalhava idéias bizarras sobre a eugenia, o aperfeiçoamento da raça humana, e publicou certo número de folhetos acerca dos assuntos mais variados, mas todos reveladores de preocupações universais e humanitárias. Eis alguns títulos (abreviados) desses opúsculos curiosos: História da raiva e o meio de preservar os homens desta desgraça como também de algumas outras que lhes ameaçam a existência; Memorial sobre as desordens escandalosas das jovens enganadas e entregues a uma horrível miséria; Memorial sobre os meios de se premunir contra os roubos e os assassinos, etc. Contudo isso, um fidalgo, homem indulgente e espirituoso, e que sabia manter, no meio das tempestades domésticas, a atitude risonha e serena de um verdadeiro sábio. Tinha 53 anos quando Honoré nasceu, e, não fosse um acidente que o matou na idade de 83 anos, haveria enterrado, centenário, todos os seus consócios da tontina.
                  Na constituição espiritual de Honoré, a herança paterna revela-se na força extraordinária da memória, na excepcional extensão da curiosidade intelectual, na predileção por ideias gerais e reformas, e em certa excentricidade nos princípios e nos hábitos. Em particular, as estranhas máximas da Fisiologia do Casamento demonstrariam a forte influência dos aforismos e dos paradoxos em que o senhor Bernard-François resumia ironicamente suas próprias experiências matrimoniais.  P.R. 
                   
        

domingo, 29 de junho de 2014

BALZAC - UMA ÉPOCA PARA ROMANCES


BALZAC - UMA ÉPOCA PARA ROMANCES 
                     Independentemente da vontade do autor, cada obra literária reflete o momento histórico em que foi criada. Além desta relação involuntária com a sua época, a obra de Balzac está fortissimamente ligada a esta por ter-se proposto o romancista, primeiro entre todos, reproduzir a vida contemporânea com toda a sua riqueza de costumes e de tipos. 
                    A existência de Balzac coincide exatamente com o meio século que medra entre dois golpes de Estado: o de 1799, pelo qual Napoleão I liquidou a Revolução Francesa, e o de 1851, pelo qual Napoleão III extinguiu a Segunda República. Balzac  ainda pode conhecer testemunhas não somente da Revolução, como também do Antigo Regime, e quando morreu, em 1850, já se previa a próxima ressurreição de um poder forte sob a forma do Segundo Império. 
                    Criança, Balzac assistiu aos capítulos mais brilhantes da epopeia napoleônica; ouviu com entusiasmo os anúncios incessantes de novas vitórias, com consternação as notícias das primeiras derrotas. Testemunhou o exílio de Napoleão à ilha de Elba, a sua volta fulminante, o relâmpago efêmero do seu Segundo Reinado, seu desaparecimento na longínqua Santa Helena - e viveu bastante para assistir à sua grande vitória póstuma, a volta de suas cinzas em 1840, um espetáculo "maior do que os triunfos romanos". (Durante toda a sua vida, Balzac sonharia evocar, em vários romances, a epopeia napoleônica, sem ter tempo, porém, para escrever estas obras que deviam fazer parte das Cenas da Vida Militar. No entanto, a figura de napoleão, a quem o escritor tinha uma admiração extraordinária, projeta a sua sombra sobre muitos episódios da Comédia Humana e revive numa página famosa do Médico Rural, a História do Imperador, contada numa granja por um veterano".) Acompanhou as duas Restaurações borbônicas antes e depois dos Cem Dias, viu surgir e desaparecer o regime conservador de Luiz XVIII e o sistema francamente reacionário de Carlos X, este último varrido pela Revolução de Julho; presenciou todo o reinado liberal-burguês de Luiz Felipe, a Revolução de 1848 e a eleição do futuro Napoleão III para Presidente da república. 
                     Quantas reviravoltas dentro de uma existência de apenas cinquenta e um anos! O mundo antigo resolvia-se dificilmente a morrer... ou as convulsões já eram as do parto laborioso de um mundo novo. Apesar das teorias conservadores que professava e que examinaremos mais adiante, Balzac não se iludia quanto ao sentido verdadeiro dos acontecimento. A "liquidação" da Revolução operava-se apenas no domínio político, mas seus germes frutificaram em todos os setores da sociedade, onde outra transformação, menos veemente, mas não menos eficaz, fazia incessantes progressos - transformação esta da qual Balzac, quisesse ou não, era um dos operários mais fervorosos. Também acompanhava com o interesse mais apaixonado as fases desta revolução latente. Por trás dos debates das Câmaras das arruaças da capital, das polêmicas dos jornais, acontecimentos mais decisivos, embora menos espalhafatosos, verificavam-se nos bastidores da sociedade. Muitas instituições antigas foram restauradas, mas os costumes de outrora ruíram definitivamente. Piores do que as escaramuças reiniciadas periodicamente nas barricadas pelo povo parisiense, acendiam-se conflitos de interesse na Bolsa, nas casa de comércio, no seio das próprias famílias. Os progressos da técnica traziam uma série de inovações, antes de tudo as estradas de ferro, que, para olhos sagazes, anunciavam imensas modificações da vida coletiva e particular. Surgiam novos poderes; o capital, a imprensa, a publicidade. Patenteava-se a ascensão prodigiosa do dinheiro, que reivindicaria um papel cada vez maior em todos os domínios. Estavam, pois, aparecendo e desenvolvendo-se as forças que passariam a moldar todo o período da história européia até a primeira guerra mundial. Esboçavam-se, desde então, os tipos humanos que as novas possibilidades não deixariam de produzir. A Comédia Humana de Balzac contém uma imagem fiel e pormenorizada de toda essa fermentação, de seus resultados visíveis e de suas consequências conjeturáveis; embora concluída em 1850, é um espelho de todo o século XIX."  
P.R.  

BALZAC - BIOGRAFIA E MISTÉRIO


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BALZAC - BIOGRAFIA E MISTÉRIO 
                    "O conhecimento dos fatos materiais da vida de um artista facilitará realmente a compreensão de sua obra? Sem dúvida. A biografia esclarece diversos aspectos da criação artística, revela as fontes das ideias do artista, indica-lhe as inspirações, segue a cristalização de sua personalidade intelectual, assinala os impulsos que recebeu de sua época e os que esta comunicou.  Mais ainda; graças ao paciente trabalho de reconstrução empreendido pelo biógrafo, a imagem do biografado, deformada pelo tempo e pela glória, reassume feições humanas. Sua personagem lendária e irreal ganha um cunho de familiaridade. Seus atos e suas atitudes encontram uma apreciação serena, justa e definitiva. O herói acaba por aparecer aos olhos dos leitores como ser parecido com eles. Em redor da obra, no entanto, a névoa não se dissipa em medida igual. 
                     Quando mais pormenores se conhecem da existência de um homem genial, tanto mais enigmática se torna a essência de sua personalidade artística. Poder-se-ão penetrar os seus segredos, mas não o seu mistério. O caso de Balzac confirma este aparente paradoxo. Inúmeras pesquisas de minúcias, a publicação sucessiva de uma infinidade de testemunhos e de documentos íntimos entregaram-nos a toda a sua vida particular. Conhecemo-lo hoje, pode-se afirmar com segurança, bem melhor do que os contemporâneos o conheciam, mas nem por isso compreendemos ainda o misterioso desabrochar, naquele indivíduo nascido em 16 de maio de 1799 e morto a 18 de agosto de 1850, da anomalia psicológica que é o gênio. 
                     Hoje vemos Balzac à luz dos refletores da pesquisa como nas cenas sucessivas de um filme contínuo.  Criança de sentimentos recalcados, com uma viva e insatisfeita sede de amor, entre pais estrambóticos. Adolescente desambientado num meio escolar de onde toda manifestação de fantasia está excluída. Jovem derrotado logo nos primeiros encontros com o destino, marcado pelo resto da vida com o estigma da incapacidade. Homem já feito, arrastando complexos de inferioridade e procurando compensar a consciência  da inata  vulgaridade por um esforço desesperado para atingir os cumes brilhantes da vida, a beleza, a nobreza, a fortuna. Velho antes do tempo, esgotado por milhares de noites de trabalho feroz, abatendo-se no limiar da felicidade almejada. Vemos-lhe os olhos em brasa, as faces rechonchudas, o papo do pescoço, os membros sem graça, a gesticulação exuberante, as vestes berrantes. Ouvimos-lhe a voz retumbante e a palavra fácil, a gargalhada grossa e a respiração ofegante. Apalpamos-lhe a mão poderosa, os ombros largos, e até a barriga, produto da vida sedentária. Diagnosticamos as suas tonturas, apanhamos com o estetoscópio os ruídos de seus pulmões, o bater de seu coração hipertrofiado.  Acompanhamo-lo em suas numerosas viagens, surripiamos sua correspondência, espionamos-lhe os namoros e amores. Acabamos por ter a impressão de haver nele um velho conhecido, quase que um membro da família - e ao mesmo tempo compreendemos cada vez menos o seu talento, essa monstruosidade que o diferencia dos outros homens. A adição de todos esses elementos, e de outros mais, já descobertos ou por descobrir, não dá uma soma igual a gênio. Não por ter sido tudo isso, mas apesar de tê-lo sido, foi que Balzac criou a Comédia Human, a maior fusão já conseguida da literatura com a vida real. O conhecimento da existência do autor não desvenda o misterioso porque desta realização; serve apenas para aumentar o assombro do espectador, para incutir-lhe um terror quase religioso perante o irracional. " Paulo Rónai.